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terça-feira, 14 de abril de 2026

Truz! Truz! - uma viagem no Tempo e na História de Olhão

Há cidades que se revelam através de obras grandiosas e nos seus grandes monumentos. 

Olhão, não. Olhão conta-se nos detalhes: na arquitetura cubista - com as suas soalheiras açoteias -, nas platibandas, que decoram as fachadas,  nas portas, nos puxadores, nas pequenas marcas do tempo que escapam a um olhar apressado, mas que se vê nas diversas camadas de tinta que se vão sobrepondo e que contam a história de quem as viveu.

Basta caminhar devagar pelas ruelas e becos, cuja largura se conta aos palmos, para perceber que cada porta guarda uma história, muitas vezes feita de outras mil histórias. Não são apenas entradas, são gestos de identidade, que revelam cultura, mester e vidas, tantas vezes ligadas à Ria Formosa, às ilhas barreiras e ao Mar.

Algumas exibem ainda a palavra “CARTAS”, discreta mas curiosa, eco de um tempo em que o correio não trazia apenas contas para liquidar e em que esta, agora, cidade - marcada, durante séculos,  pela atividade piscatória e conserveira - vivia profundamente virada para exterior. Um detalhe simples, mas carregado de mundo.

Um pouco acima, puxadores cuidadosamente trabalhados com linhas ondulantes que parecem seguir o movimento da água. Há desenhos que lembram conchas, cordas, peixes, e outros. O mar está sempre presente, mesmo quando apenas se sente o odor a maresia.

Depois há as mãos. As pequenas “mãozinhas” metálicas de bater à porta, em ferro ou latão, gastas pelo uso, polidas pelo tempo, testemunhos  de uma vida "pré-campaínha elétrica". São mãos que anunciam presença, que pedem entrada, que repetem um ritual antigo. 

Estas portas deixam largas à imaginação. Atrás escondem corredores longos de mosaico hidráulico e paredes de efeito marmoreado, bibes saltitantes e, inevitavelmente, chinelos de ourelo nos pés mais modestos ligados ao mar, que os calçavam nas noites frias e húmidas de quem não pode fugir ao fado marítimo.

E, no meio desta linguagem popular, surgem traços de uma estética mais ampla. Certas curvas, certos desenhos mais fluidos denunciam a influência da Arte Nova, com a sua inspiração na natureza e no movimento. Mas aqui, essa influência não é pura nem académica: mistura-se com a vivência marítima, com a simplicidade das casas cúbicas, com o branco dominante das fachadas. Torna-se algo próprio, adaptado, quase intuitivo.

As portas não são apenas funcionais, são expressão. Revelam ofícios, gostos e influências. 

Muitas destas ferragens foram feitas por artesãos locais, o que explica a diversidade e o carácter quase único de cada exemplar. Não há padronização, há  - sim - personalidade.

Talvez seja isso que as  torna tão fascinantes. Não são peças de museu, isoladas e intocáveis. São elementos, ainda vivos, integrados no dia a dia, expostos ao sol, ao sal, ao uso constante. São tocadas, abertas, fechadas - fazem parte da rotina de quem ali vive. 

Atualmente, as histórias até podem mudar a cada dois ou três dias, serem mais barulhentas durante a época estival e falarem outras línguas que não a nossa. Os "filhos de Olhão" podem já escassear, mas há quem chegue e reconheça no passado um futuro que deixa saudades. E só isso é deslumbrante!

Fotografá-las é, no fundo, uma forma de escutar a cidade. De parar, de observar e  e reconhecer que, em Olhão, a beleza não se impõe, descobre-se! 

Olhão é assim: uma cidade onde o quotidiano e o simbólico se encontram.