quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ser mãe depois dos 40


Sempre quis ser mãe. E entenda-se este "sempre", como "sempre" mesmo. Recordo que aos 16 anos, do alto da sapiência da minha adolescência, me sentia preparada para tal - obviamente, que à luz dos anos sei perfeitamente que isso não é verdade. Penso que só via a parte boa da coisa: o vestir, o banho, as brincadeiras e as gracinhas. Aos 20 sonhava com uma familia grande: seis filhos! - cinco biológicos e um adoptado.

Os anos foram passando e o "cerco" foi-se apertando. As amigas casaram e tiveram filhos - no meio disto tudo tenho a sorte e a felicidade de uma delas me ter confiado o papel de madrinha (que cumpro da,melhor forma que o sei) da miúda mais querida do Universo - é doce, bem disposta, tem a gargalhada mais contagiante que existe e, ainda por cima, é gira que dói! Admito, foi uma altura menos fácil. Gerir as conversas sobre fraldas, birras e primeiras conquistas e não ter os mesmos assuntos para partilhar nem sempre foi agradável. Sentia-me um pombo num bando de canários. De vez em quando levava umas palmadinhas no ombro, acompanhadas da frase que ouvi vezes sem conta "ahhh, ainda tens tempo". E a verdade é que tinha.

Até aos 38-39 achei que ainda o tinha. O tempo tinha passado e se calhar eu já estava a ficar muito atrasada, muito para além do segundo toque.  A partir daqui houve quem me sugerisse ser mãe sem que houvesse um pai. Não. Eu acho que uma criança precisa de um pai - há quem não concorde com isto, pelas mais variadas razões e eu respeito, mas para mim, ter um filho é uma arte de duas pessoas que se amam. Houve também quem me sugerisse a adopção, mas por razões que aqui não são chamadas, a adopção deixou de ser uma opção - não vale a pena imaginarem o porquê desta decisão, porque irão tirar conclusões precipitadas e, certamente, erradas.

E agora? Quase com 43? Ainda alimento o desejo? Não! Um grande, não! Uiiiii...e porquê? Acho que por puro egoísmo. Não me assusta a gravidez, as mudanças no corpo, as noites mal dormidas. Assusta-me sim, o chegar aos 50 anos e ter uma criança nos braços. Ou chegar aos 60 e ter um adolescente para educar. Um adolescente aos 60 anos? Por essa altura eu vou querer sopas e descanso. Por muito que digam que os 50/60 são os novos 30/40 não é bem assim... Um filho é um projecto a longo prazo e aos 50 ou 60 a validade do mesmo é bem mais curta que aos 20 ou aos 30.

Conclusão: Aprendi a viver com a ausência de algo que nunca soube o que era ter e se a vida abriu uma ferida, o tempo ajudou a curá-la. De um ponto de vista objectivo é como se tivesse sonhado com um negócio que nunca chegou a sair do papel.

E porque escrevo sobre isto? Porque é que exponho uma das minhas fragilidades? (apesar de sarada, esta é uma "ferida" cuja cicatriz está cá, não há como negar). Sabe-se lá porquê, nos últimos tempos têm-me chegado histórias de mulheres da minha geração que também não têm filhos. Umas por razões de saúde, outras por opção e outras, como eu, a quem a vida não proporcionou esse dom.

Cada uma de nós gere isto da melhor forma que sabe. Há quem recorra a ajuda de profissionais, há quem se esconda na carapaça e há quem encare a ausência de filhos de peito aberto. E de algum modo conseguimos ser felizes assim. Porque ser feliz só depende de cada um de nós e da forma como encaramos o que para uns são problemas e que para outros são apenas circunstancias. Ser feliz passa, também por aprender a fortalecer os nossos pontos fracos, a aplicar a energia noutras coisas ou pessoas que nos façam felizes.

Seria mais feliz se fosse mãe? Não sei. Aprendi a sê-lo quando sou um bocadinho mãe das crianças e adolescentes que vivem à minha volta. Se me sinto incompleta? Também não, pois não sou um puzzle a quem falte uma peça para ser emoldurado.

É isto! Apenas isto. E perguntam vocês: "Mas que diabo lhe passou pela cabeça para escrever este texto?" Não foi diabo nenhum. Foi este corajoso conjunto de posts que fala sobre a impossibilidade (temporária, assim o espero) da maternidade e da forma como é encarada. É que isto de não ser, não poder ou não querer ser mãe ainda é tabu e muitas vezes ostracizado pela sociedade - sociedade esta de onde fazem parte os vizinhos que nos viram crescer, os colegas de trabalho, os amigos dos pais, os próprios amigos. 

Por fim, o meu pedido de desculpas a quem leu o título deste post e o veio ler a correr pensando que eu iria revelar uma gravidez tardia.



Pano p'ra Mangas
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7 comentários:

  1. Ahhhh minha querida...ainda assim como te compreendo. É um ser sem nunca ter sido, m tb um misto de emoções não sentidas, m imaginadas... Quem os tem, provavelmente não se imagina sem eles e quem não os tem, imagina como seria se os tivesse... M o importante é viver-se com essa aceitação e sermos felizes com o q somos e com o q temos!!!
    Beijinhos

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  2. Minha querida Margarida:
    Quando eu era muito pequenina sonhava com uma família grande cheia de filhos, na minha adolescência sonhava com uma vida independente sem marido e sem filhos(ahahahahah)!!
    A vida está sempre a surpreender!!
    Tenho três como tu bem sabes e só não tive mais, porque... porque... a idade não perdoa!
    Curiosamente esta semana tive uma noticia maravilhosa, que me deixou super feliz, um casal amigo um(que tu também conheces :)) impossibilitado por problemas de saúde para serem pais e inscrito à 5 anos nas enormes listas de espera para adoção, foram pais!! Pais de um bebé lindo de 17 meses! São da nossa idade! A vida tem destas surpresas! Também tenho amigas de relações longas e seguras que não querem ter filhos!!!! E qual é o problema??? Nenhum!!! Acho um horror a pressão em torno das mulheres para a maternidade! Cada um sabe de si, e Deus sabe de todos!!! Odeio fundamentalismos, como por exemplo a "amamentação" outro tema que me deixa horrorizada com comentários horríveis de mulheres para mulheres!
    Eu, apesar de adorar bebés, acho que já não me apetece0 passar por aquilo tudo outra vez!! Agora estou na fase de querer CURTIR os que tenho e a vida que ainda me sobra!!
    Entendo muito bem o teu texto e posição!
    Um grande beijinho e desculpa o testamento!!!

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  3. Curiosamente, quando vi o titulo do post pensei que iria ler exactamente o que escreveste, sabe-se lá porquê? Parabéns pela tua coragem.

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  4. Por momentos pensei mesmo, que nos ias dar uma boa notícia.
    São opções de vida respeito imenso.
    Também tive problemas em conseguir engravidar, passando por vários testes e tratamentos, a adopção foi sempre ponderada, mas o tempo passou e tive a boa notícia sem saber que estava grávida já lá iam 3 meses e meio.
    Beijinho grande.

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  5. Pensei que estava gravida quando vi a notificacao no Facebook:)
    Tenho 3 e nao me imagino sem eles, mas penso muitas vezes que quando o mais novo fizer 18 eu terei 53..epah

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  6. A vida nem sempre é o que desejamos, e muitas vezes temos de aprender a viver com o que ela nos oferece. Essa é capaz de ser a maior aprendizagem de todas e, através da qual, crescemos e evoluímos mais...ou não, nem sempre.

    Eu nunca quis ser mãe, nunca mesmo. As minhas brincadeiras incluíam tudo menos bebés. Aventuras, passeios de bicicleta, jogar à bola, ser professora, brincar às casas, fazer roupas para as bonecas...isso tudo, mas nunca ser a mãe dos bebés. Fui mãe aos 33 anos, porque o meu marido queria muito ser pai e porque tive receio de me vir a arrepender. A minha filha foi o primeiro bebé em que peguei ao colo. Não sabia nada do que era um bebé, nem do que fazer com ele. Não sabia o que era ser mãe. Aprendi aos poucos, deixando o instinto vir ao de cima, porque ele está sempre cá, ainda que camuflado. Hoje, nove anos depois, não me arrependo de ter optado por ser mãe, amo muito a minha filha, mas sei que não me sentiria menos mulher, menos capaz, menos ser-humano, se não o tivesse sido. Ainda sobre a adopção, tanto haveria a dizer...eu sou adoptada e posso apenas dizer o que sinto, os laços de sangue nunca se quebram. E quem adopta, tem de saber bem o que está a fazer, tem de ter um coração enorme, tem de ter uma sensibilidade acima da média, tem de ser emotiva e tem de ter uma estrutura interior forte para lidar com as adversidades. No fundo, no fundo, as crianças que nascem de dentro de nós, são sempre parecidas connosco, as outras, podem ser ou não. E é muito difícil ter nos braços uma criança que se sente sempre deslocada, como o é crescer e sentir que não se pertence ali.

    Margarida, perdoa-me este comentário que já vai extenso, mas é realmente um tema que me toca cá dentro. A vida é uma benção, com ou sem filhos. Acordar e ver a vida, ver o mundo, ver a natureza é maravilhoso. Os filhos são apenas um extra desta coisa fabulosa que é estar vivo. Aproveita cada momento dos teus dias, cada pedaço do que te é oferecido. O grande segredo é estarmos em paz connosco.

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  7. Com o tempo, tenho pensado que é preciso coragem para deixar filhos no mundo em que vivemos...A natureza não me beneficiou com o dom da maternidade, e sou FELIZ mesmo assim. É isso mesmo, o grande segredo é viver em paz consigo mesmo/a. beijinho

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